Entre Livros e Ideias

Entre Livros e Ideias — resenhas, reflexões e crônicas sobre os grandes autores que atravessaram os séculos, por Valeria Tostes.

  • A METAMORFOSE

    De Franz Kafka: Quanto vale uma pessoa quando ela deixa de ser útil?

    Imagine acordar certa manhã e descobrir que seu corpo já não é o mesmo. Talvez o mais assustador, porém, não seja perceber que você se transformou em uma criatura monstruosa. Talvez seja descobrir que, para as pessoas ao seu redor, o verdadeiro problema começa quando você deixa de ser útil.

    É assim que Franz Kafka nos apresenta Gregor Samsa. Não há preparação, explicação científica ou causa sobrenatural. Logo no início de A Metamorfose, Gregor desperta de sonhos inquietos e percebe que sofreu uma transformação inexplicável. O absurdo está instalado — e Kafka não parece particularmente interessado em explicar como aquilo aconteceu. Mais perturbador ainda é perceber que o próprio Gregor demora a se ocupar da pergunta que parece óbvia ao leitor. Sua preocupação imediata é outra: o trabalho. O horário do trem. O atraso. O chefe. As consequências de não comparecer ao emprego.

    Talvez seja aí que a verdadeira metamorfose comece a se revelar.

    Gregor Samsa já estava preso antes da transformação

    Antes daquela manhã, Gregor era caixeiro-viajante. Trabalhava em uma atividade que detestava, submetido a horários exaustivos, viagens constantes e a um patrão diante do qual não parecia possuir grande autonomia. Ainda assim, permanecia no emprego porque sustentava financeiramente os pais e a irmã, Grete, além de carregar a responsabilidade pelas dívidas familiares.

    Por isso, quando não aparece no trabalho, a reação da empresa é quase imediata. Um representante vai até sua casa verificar o que aconteceu. Não há verdadeira preocupação com sua saúde. Há cobrança, suspeita e necessidade de explicação. Gregor não é tratado como alguém que talvez esteja doente ou passando por alguma dificuldade. É tratado como uma peça da engrenagem que inesperadamente deixou de funcionar.

    E Kafka constrói uma das ironias mais inquietantes da obra: Gregor perdeu a forma humana, mas continua pensando como o funcionário obediente que sempre foi. Enquanto sua família se desespera diante da porta, ele tenta imaginar uma maneira de justificar o atraso.

    O corpo mudou antes que sua consciência pudesse perceber o quanto sua vida já havia sido reduzida à obrigação.

    Quando o provedor deixa de prover

    Durante muito tempo, Gregor ocupou uma posição central na família porque era ele quem garantia seu sustento. Sua renda permitia que os demais permanecessem relativamente protegidos das dificuldades materiais. Depois da metamorfose, porém, essa relação começa a mudar.

    No início ainda existe algum cuidado. Grete é quem mais tenta compreender as necessidades do irmão. Leva comida ao quarto, observa aquilo que ele consegue comer e procura tornar aquele espaço minimamente habitável. Gregor, por sua vez, mantém sentimentos profundamente humanos. Preocupa-se com a família, sente vergonha, percebe as reações dos outros e procura esconder-se para não assustá-los.

    Mas os dias passam.

    E o que inicialmente provoca espanto começa a produzir incômodo.

    A família precisa reorganizar a própria vida. O pai volta a trabalhar. A mãe também participa dos esforços domésticos. Grete assume novas responsabilidades. Gregor, antes indispensável, passa gradualmente a ocupar outra posição: deixa de ser aquele que sustenta a casa e se transforma naquele que precisa ser sustentado.

    É nesse deslocamento que Kafka toca em uma questão que ultrapassa em muito a história fantástica que está contando:

    Quanto do nosso valor, aos olhos dos outros — e talvez aos nossos próprios olhos — está ligado àquilo que somos capazes de produzir?

    O quarto que vai ficando menor

    O quarto de Gregor é um dos espaços mais importantes da narrativa. No início, ainda é o quarto de um homem: móveis, objetos pessoais, lembranças de uma vida anterior. Aos poucos, porém, aquele ambiente também sofre uma metamorfose.

    A família começa a retirar objetos para que ele possa se movimentar melhor. O gesto poderia ser interpretado como cuidado, mas Gregor percebe que, junto com os móveis, desaparecem marcas de sua existência humana. Ele se agarra ao que resta de seu passado porque aqueles objetos significam mais do que sua utilidade: representam a identidade que ele ainda reconhece como sua.

    Mais tarde, o quarto passa a receber coisas que a família não sabe onde guardar.

    Gregor torna-se, então, quase parte daquilo que foi descartado.

    Kafka não precisa explicar a metáfora. O espaço fala por ele. Quanto menos Gregor participa da vida familiar, menos espaço simbólico ocupa naquela casa. A porta se fecha. As conversas acontecem do outro lado. A família continua vivendo enquanto ele observa fragmentos daquela existência da qual um dia participou.

    Talvez uma das formas mais dolorosas de exclusão não seja ser expulso de um lugar, mas continuar nele e perceber que já não pertencemos a ele.

    A maçã e o pai

    A transformação também modifica profundamente a relação de Gregor com o pai. O homem que antes dependia financeiramente do filho reaparece investido de autoridade e força depois que retorna ao trabalho. Em determinado momento, diante de Gregor fora do quarto, reage violentamente e atira maçãs contra ele.

    Uma delas permanece cravada em seu corpo. A ferida nunca se recupera completamente.

    A cena é brutal não apenas pela agressão física, mas pelo que representa. Gregor dedicara anos a sustentar aquela família. Agora, incapaz de cumprir o mesmo papel, passa a ser visto como ameaça, vergonha e peso.

    E, ainda assim, ele não responde com ódio equivalente.

    Essa talvez seja uma das crueldades mais discretas de Kafka: por trás da aparência monstruosa, Gregor continua sendo profundamente humano. Ele sente culpa por causar transtornos. Preocupa-se com os pais. Ama a irmã. Sofre ao perceber o afastamento daqueles por quem sacrificou grande parte da própria vida.

    O corpo tornou-se estranho. Os sentimentos, não.

    Grete também se transforma

    Se Gregor sofre a metamorfose mais evidente, ele não é o único personagem que muda.

    Grete começa como sua principal ligação com o mundo. É ela quem entra no quarto, leva comida e tenta compreender aquilo em que o irmão se transformou. Gregor nutre por ela um carinho especial e alimentava inclusive planos relacionados ao futuro da irmã e à sua vocação musical.

    Mas Grete também se cansa.

    O cuidado transforma-se em obrigação. A compaixão cede lugar ao incômodo. E chega o momento em que ela conclui que aquela situação não pode continuar.

    Esse deslocamento é fundamental porque impede uma leitura excessivamente simples da família como um grupo de pessoas naturalmente cruéis. Kafka mostra algo mais desconfortável: o afeto também pode sofrer erosão quando o cuidado se torna pesado, prolongado e sem perspectiva de mudança.

    Isso não torna o abandono menos doloroso. Torna-o mais humano — e talvez exatamente por isso mais perturbador.

    Quem é o verdadeiro monstro?

    É tentador terminar A Metamorfose perguntando se a família de Gregor é monstruosa. Mas talvez Kafka esteja construindo uma pergunta mais difícil.

    Gregor já vivia para os outros antes de se transformar. Aceitava um trabalho que odiava, carregava responsabilidades que ultrapassavam seus desejos e parecia adiar indefinidamente a própria vida em nome das necessidades familiares. Enquanto conseguia desempenhar esse papel, a estrutura funcionava.

    Quando deixa de conseguir, todos precisam mudar.

    Inclusive ele.

    A metamorfose física apenas torna impossível continuar escondendo aquilo que já existia: uma vida organizada em torno da função, da obrigação e da utilidade.

    E há algo especialmente incômodo nisso porque essa lógica não pertence apenas ao universo de Kafka. Ainda medimos pessoas pelo emprego que possuem, pela renda que produzem, pela autonomia que mantêm, pela capacidade de cuidar de si mesmas ou dos outros. A produtividade frequentemente se mistura à identidade de tal maneira que perder uma função pode parecer, para quem vive a perda e para quem observa, quase como perder uma parte do próprio valor.

    Kafka leva essa lógica ao absurdo para que possamos enxergá-la.

    A metamorfose que acontece do lado de fora do quarto

    Há uma inversão extraordinária na narrativa. Enquanto Gregor se enfraquece, a família se reorganiza. Pessoas que pareciam incapazes de sobreviver sem ele descobrem recursos que antes não utilizavam. Trabalham, adaptam-se e começam a imaginar outro futuro.

    Gregor, ao contrário, vai desaparecendo.

    Quando finalmente deixa de representar um obstáculo para a continuidade daquela família, o sentimento predominante não é apenas tristeza. Há também alívio. E talvez poucas coisas sejam tão dolorosas quanto perceber que o mundo pode respirar melhor depois que alguém desaparece.

    Por isso o final de A Metamorfose é tão importante. A transformação iniciada no quarto de Gregor termina alcançando todos. O pai muda. A mãe muda. Grete muda. A própria família encontra uma nova configuração.

    No fim, talvez o título nunca tenha pertencido exclusivamente a Gregor Samsa.

    Por que ler A Metamorfose hoje?

    Porque Kafka conseguiu transformar uma situação impossível em uma experiência assustadoramente reconhecível.

    Poucos de nós acordaremos transformados em uma criatura monstruosa. Mas podemos adoecer, envelhecer, perder um emprego, depender de alguém, deixar de desempenhar uma função que durante anos definiu nosso lugar no mundo. Podemos passar de cuidadores a cuidados, de provedores a dependentes, de necessários a inconvenientes.

    E então a pergunta de Kafka deixa de parecer absurda.

    A Metamorfose não precisa ser lida apenas como uma história sobre alienação, trabalho ou relações familiares. Ela também pode ser lida como uma pergunta sobre aquilo que permanece de uma pessoa quando lhe retiramos tudo aquilo que fazia dela alguém socialmente útil.

    Gregor perde o trabalho. Perde a renda. Perde a autonomia. Perde a possibilidade de se comunicar. Aos poucos, perde até o lugar que ocupava dentro da própria família.

    Mas durante grande parte da narrativa ainda sente, lembra, deseja, sofre e ama.

    Talvez seja por isso que, mais de um século depois, Kafka continue nos deixando desconfortáveis. Porque podemos fechar o livro convencidos de que Gregor Samsa se transformou em algo monstruoso.

    Mas Kafka deixa uma pergunta muito mais difícil do lado de fora daquele quarto: em que momento nós começamos a tratar alguém como se tivesse deixado de ser humano?

     

     

     

  • ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

    Há futuros que assustam pela violência. Outros assustam porque parecem felizes.
    Em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley nos apresenta uma sociedade futurista em que a ciência e o consumo se tornaram os novos deuses. Diferente de outras distopias marcadas pelo medo e pela violência, o controle social aqui é exercido pelo excesso de prazer, pela manipulação genética e pelo conformismo programado. É um mundo onde a dor foi erradicada, mas a própria humanidade foi levada junto com ela.
    O que mais impressiona na obra é a precisão com que Huxley antecipou dilemas modernos. Os seres humanos são produzidos em série, divididos em castas biológicas e condicionados desde o nascimento a aceitarem sua posição sem questionar. Casamentos, famílias e laços profundos foram proibidos; em seu lugar, o Estado estimula a promiscuidade e o consumo desenfreado de mercadorias. Se qualquer sentimento de angústia ou vazio insistir em aparecer, basta tomar uma dose de soma, a droga oficial da felicidade instantânea e anestésica.
    A história nos leva a uma sociedade em que guerras, conflitos familiares, grandes paixões e boa parte do sofrimento humano parecem ter sido finalmente vencidos. Não há fome, todos possuem um lugar previamente determinado e a estabilidade tornou-se um dos maiores valores sociais. À primeira vista, talvez pareça que a humanidade finalmente encontrou a fórmula para viver em paz. O preço dessa paz, porém, começa a ser cobrado antes mesmo do nascimento.

    A história nos leva a uma sociedade em que guerras, conflitos familiares, grandes paixões e boa parte do sofrimento humano parecem ter sido finalmente vencidos. Não há fome, cada pessoa possui um lugar previamente determinado e a estabilidade tornou-se um dos maiores valores sociais. À primeira vista, talvez pareça que a humanidade finalmente encontrou uma fórmula para viver em paz.

    O preço dessa paz, porém, começa a ser cobrado antes mesmo do nascimento.

    Nesse mundo, seres humanos já não nascem de mães. São produzidos em laboratórios e destinados às castas Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsilon. Antes mesmo de compreenderem quem são, passam por processos de condicionamento destinados a fazê-los desejar exatamente a vida que terão. Alguns ocuparão funções intelectuais; outros executarão trabalhos repetitivos. Não é necessário obrigá-los a aceitar seu lugar. Eles foram preparados para gostar dele.

    Família, maternidade e paternidade pertencem a um passado considerado constrangedor. Relações afetivas exclusivas são desencorajadas. O consumo é estimulado e a solidão parece quase uma anomalia. Se alguma tristeza, ansiedade ou desconforto insistir em aparecer, existe o soma, a droga capaz de devolver rapidamente a sensação de bem-estar. Não é preciso compreender a dor quando é possível simplesmente fazê-la desaparecer.

    É nesse universo que conhecemos Bernard Marx e Lenina Crowne. Bernard pertence à casta Alfa, mas não se sente completamente integrado à sociedade em que vive. Há nele um desconforto que contrasta com Lenina, muito mais adaptada aos valores que recebeu desde o nascimento.

    Quando os dois viajam para uma Reserva de Selvagens, entram em contato com tudo aquilo que sua civilização procurou eliminar. Ali as pessoas nascem naturalmente, envelhecem, adoecem, constituem famílias, praticam rituais e convivem com a dor.

    É também ali que encontram Linda e seu filho, John.

    Linda havia pertencido ao Estado Mundial, mas permanecera na Reserva depois de uma viagem ocorrida muitos anos antes. John nasceu naturalmente e cresceu entre pessoas às quais nunca conseguiu pertencer por completo. Filho de uma mulher vinda de outro mundo e rejeitado em grande parte pela comunidade em que vive, encontra nos livros — sobretudo em Shakespeare — palavras para compreender sentimentos que conhece intensamente: amor, desejo, ciúme, honra, culpa, beleza e sofrimento.

    Bernard percebe o impacto que a existência dos dois pode provocar e os leva de volta para Londres.

    John imediatamente desperta curiosidade. O chamado “Selvagem” torna-se uma espécie de atração social, e Bernard, antes desconfortável e pouco valorizado, passa a desfrutar do prestígio de ser o homem que o apresentou àquela sociedade. Mas é justamente através dos olhos de John que o admirável mundo começa a parecer cada vez menos admirável.

    Ele se sente atraído por Lenina, mas os dois foram formados por concepções de amor praticamente incompatíveis. Para ela, exclusividade, espera e compromisso não fazem sentido. Para John, alimentado pelas palavras de Shakespeare, desejo e amor estão carregados de idealização, conflito e significado. Quando Lenina manifesta diretamente seu desejo por ele, aquilo que deveria aproximá-los evidencia a enorme distância entre seus mundos.

    Enquanto John tenta compreender aquela sociedade, Linda encontra nela exatamente aquilo que desejava: a possibilidade de não sentir. Refugia-se cada vez mais no soma, afastando-se da realidade até que seu corpo não resiste.

    John está ao lado da mãe quando ela morre.

    Sua dor, porém, acontece diante de pessoas condicionadas desde a infância para encarar a morte sem grande envolvimento emocional. O sofrimento que para ele é profundamente humano parece quase inadequado naquele ambiente. Pela primeira vez, torna-se evidente que uma sociedade que conseguiu reduzir o medo da morte também precisou modificar a maneira como seus habitantes se relacionam com a perda.

    A revolta de John cresce. Ao encontrar trabalhadores recebendo suas doses de soma, tenta convencê-los de que aquela felicidade tem um preço. Interfere na distribuição da droga, provoca uma confusão e acaba detido ao lado de Bernard e Helmholtz Watson, outro personagem que, apesar de ocupar uma posição privilegiada, também percebe que alguma coisa falta à existência cuidadosamente organizada pelo Estado.

    É então que Huxley conduz o romance ao seu confronto mais importante.

    Diante de Mustafá Mond, um dos Controladores Mundiais, John finalmente encontra alguém que compreende perfeitamente aquilo que ele tenta defender. Mond conhece Shakespeare. Conhece religião, arte, história e ciência. Sabe o que existia antes daquela sociedade e sabe também o que foi sacrificado para construí-la.

    Essa talvez seja uma das escolhas mais interessantes de Huxley: Mond não defende o sistema por ignorância.

    Ele conhece o preço.

    Arte profunda pode perturbar. Ciência sem limites pode ameaçar a estabilidade. Religião nasce também da necessidade, da solidão e da consciência da mortalidade. Paixões intensas podem produzir sofrimento. A liberdade permite escolhas — e escolhas permitem erros.

    O Estado Mundial preferiu eliminar os riscos.

    John, porém, deseja justamente aquilo que aquela civilização considera inconveniente. Quer beleza, poesia, liberdade, perigo, fé, paixão. Quer poder escolher mesmo quando a escolha trouxer sofrimento. Diante de um mundo que transformou a felicidade em obrigação, ele reivindica até mesmo o direito de ser infeliz.

    É nesse confronto que percebemos que o soma representa muito mais do que uma droga. Ele é o símbolo de uma sociedade que não permite que o desconforto permaneça tempo suficiente para se transformar em pergunta. Tristeza, frustração, vazio e angústia não precisam ser compreendidos. Basta silenciá-los.

    O mesmo princípio atravessa o consumo. As pessoas são condicionadas a comprar, substituir e descartar. Conservar e reparar não interessam a uma economia que depende do consumo permanente. Até determinadas formas de lazer são estimuladas porque exigem equipamentos e movimentam a produção.

    Pouco a pouco, Huxley constrói um mundo em que objetos, prazeres e até relações humanas parecem submetidos à lógica da substituição.

    Bernard e Helmholtz recebem destinos diferentes. John, porém, não deseja permanecer naquele mundo. Procura escapar dele e refugia-se sozinho em um farol, tentando reconstruir uma existência na qual possa escolher como viver. Busca silêncio, isolamento e até penitência.

    Mas a sociedade não o deixa desaparecer.

    Sua tentativa de viver longe de todos transforma-se em espetáculo. Pessoas começam a procurá-lo por curiosidade. Repórteres aparecem. Multidões se aproximam para observar o Selvagem como entretenimento. Até sua recusa em participar daquele mundo é absorvida por ele.

    John acaba envolvido novamente justamente naquilo de que tentava fugir. Quando percebe que não conseguiu preservar nem o último espaço que considerava seu, já não encontra uma maneira de reconciliar o mundo que desejava com aquele em que foi obrigado a viver.

    Na manhã seguinte, encontram seu corpo pendurado no farol.

    E somente então o destino de John revela toda a crueldade da experiência construída por Huxley: ele não conseguiu pertencer à Reserva, não conseguiu pertencer ao Estado Mundial e, finalmente, não conseguiu existir fora de ambos.

    Publicado originalmente em 1932, Admirável Mundo Novo continua inquietante porque sua pergunta central não depende de laboratórios futuristas, castas ou de uma droga chamada soma. O romance nos obriga a pensar no preço que estamos dispostos a pagar para evitar o desconforto e na facilidade com que prazer, consumo e distração podem ocupar o espaço da reflexão.

    A comparação com 1984, de George Orwell, é quase inevitável, embora os dois livros imaginem mecanismos diferentes de controle. Orwell nos mostra um poder que vigia, censura, ameaça e pune. Huxley imagina algo mais sedutor: uma sociedade em que grande parte das pessoas não precisa ser obrigada a obedecer porque aprendeu a desejar aquilo que o sistema deseja para elas.

    Talvez seja esse o aspecto mais perturbador do livro. O Estado Mundial não precisa manter milhões de pessoas infelizes sob permanente coerção. Ao contrário: oferece conforto, prazer, estabilidade e uma maneira rápida de eliminar quase qualquer sofrimento.

    E então surge a pergunta que permanece muito depois da última página:

    Se pudéssemos eliminar a dor ao preço da liberdade, ainda saberíamos reconhecer aquilo que perdemos?

  • A Folha e o Riacho


    Em um riacho tranquilo passeava uma folha.

    Tinha luz, tinha ar. Do que precisaria mais?

    Pela primeira vez, sentia-se livre dos galhos que a aprisionavam.

    Olhava para as outras folhas, ainda presas às árvores, e não entendia por que balançavam tão felizes.

    Enquanto seguia, elas observavam sua passagem.

    Algumas gritavam:

    — Cuidado!

    Era sempre que uma pedra surgia pelo caminho.

    As pedras podem ser contornadas, pensava ela.

    E seguia em frente.

    Mais adiante, outras folhas acompanharam sua passagem.

    — Cuidado! Não está vendo o abismo que se aproxima?

    Por alguns instantes, a folha tremeu.

    Pela primeira vez, sentiu medo.

    Um tronco que boiava ao seu lado percebeu seu desespero à medida que a queda se aproximava.

    — Não tema. Ao final, o riacho voltará a se aquietar.

    E, juntos, flutuaram abismo abaixo.

  • ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

    Ensaio sobre a Cegueira: quando ver não significa enxergar

    Há livros que contam uma história. Outros nos obrigam a olhar para aquilo que preferiríamos não ver.
    Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, pertence à segunda categoria.
    A premissa parece simples: um homem, parado diante de um semáforo, perde subitamente a visão. Mas não mergulha na escuridão. Ao contrário, é tomado por uma cegueira branca, leitosa, como se estivesse submerso em luz. Em pouco tempo, outros casos surgem. A cegueira se espalha sem causa conhecida, sem tratamento e sem explicação.
    É a partir dessa epidemia impossível que Saramago constrói uma das mais inquietantes alegorias sobre a condição humana.

    A pandemia

    Tudo começa no trânsito. Um homem espera o sinal abrir quando, de repente, deixa de enxergar. Não é a escuridão que normalmente associamos à cegueira, mas uma espécie de brancura intensa, leitosa, como se o mundo tivesse desaparecido sob uma camada de luz. Um desconhecido se oferece para levá-lo para casa e, pouco depois, rouba seu carro. O primeiro cego procura um oftalmologista, que não encontra qualquer alteração capaz de explicar o que aconteceu. Em pouco tempo, porém, o próprio médico também perde a visão.

    A partir daí, os casos se multiplicam. A mulher do primeiro cego, a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta, o menino estrábico e outras pessoas são atingidos pela mesma cegueira branca. Sem compreender a causa ou saber como impedir a propagação, o governo reage isolando os contaminados e aqueles que tiveram contato com eles em um antigo manicômio. O medo da epidemia rapidamente transforma pessoas doentes em ameaça, e a resposta das autoridades passa a ser menos cuidar dos cegos do que mantê-los afastados dos que ainda enxergam.

    Há, entretanto, uma exceção: a mulher do médico não fica cega. Quando o marido é levado para o isolamento, ela afirma também ter perdido a visão para poder acompanhá-lo. É uma decisão que muda sua posição dentro da narrativa. Enquanto todos ao redor precisam aprender a existir em um mundo que já não podem ver, ela continuará enxergando cada detalhe daquilo em que esse mundo está se transformando.

    No manicômio, Saramago começa a desmontar, pouco a pouco, aquilo que chamamos de civilização. No início ainda existem tentativas de organização, divisão de tarefas e alguma esperança de que a situação seja temporária. Mas novos cegos continuam chegando, a comida se torna insuficiente, a higiene desaparece e o abandono por parte das autoridades fica cada vez mais evidente. Quando um dos grupos passa a controlar os alimentos e exigir pagamento para distribuí-los, o dinheiro e os objetos de valor logo deixam de bastar. As mulheres passam a ser exigidas como moeda de troca. É nesse momento que a violência deixa de ser apenas consequência do caos e se transforma em instrumento de poder.

    A degradação descrita por Saramago é difícil de ler justamente porque não acontece de uma vez. Ela avança gradualmente, quase sempre acompanhada de alguma justificativa. Primeiro é preciso isolar para proteger os outros. Depois é necessário obedecer para manter a ordem. Mais tarde, aceita-se uma violência para conseguir comida. A cada novo limite ultrapassado, aquilo que antes seria impensável passa a fazer parte da rotina. A cegueira física, então, começa a revelar outra cegueira, muito mais antiga e talvez mais perigosa.

    Nesse cenário, a mulher do médico ocupa um lugar particularmente doloroso. Ser a única que enxerga não lhe concede verdadeiro poder; ao contrário, obriga-a a testemunhar aquilo de que os demais são parcialmente poupados. Ela vê a sujeira, os corpos, o medo, as agressões e a perda progressiva da dignidade. Precisa decidir quando ajudar, quando esconder que vê e quando intervir. Em determinado momento, também precisa descobrir até onde está disposta a ir para impedir que a violência continue. Em Ensaio sobre a Cegueira, enxergar não é apenas uma capacidade. É uma responsabilidade.

    Saramago reforça o caráter universal da história ao não dar nomes aos personagens. Conhecemos o médico, a mulher do médico, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, a rapariga dos óculos escuros, o velho da venda preta, o menino estrábico. Também não há uma cidade claramente identificada. Essa ausência de nomes impede que o leitor coloque uma distância confortável entre si e aquelas pessoas. Não se trata de uma tragédia pertencente a determinado lugar ou a determinado grupo. Aqueles personagens poderiam ser quaisquer pessoas e aquela cidade poderia ser qualquer cidade.

    Quando os cegos finalmente deixam o manicômio, descobrem que já não existe um mundo normal esperando por eles. A epidemia tomou a cidade. As ruas estão tomadas pelo lixo, as casas foram abandonadas ou ocupadas, grupos procuram comida e pessoas vagam sem saber exatamente para onde ir. A cegueira, que inicialmente parecia um problema individual e depois sanitário, tornou-se uma experiência coletiva. É nesse mundo desfeito que um pequeno grupo permanece unido, guiado pela única pessoa que ainda pode enxergar.

    Mas seria reduzir muito o romance considerá-lo apenas uma narrativa sobre o colapso da sociedade. Saramago também mostra gestos de cuidado, solidariedade e afeto. Seus personagens dividem comida, protegem uns aos outros, procuram abrigo e tentam reconstruir alguma forma de convivência quando praticamente todas as estruturas externas desapareceram. O mesmo ser humano capaz de explorar alguém vulnerável também pode estender a mão para que outro não caia. Talvez por isso o livro seja mais perturbador do que seria se apresentasse simplesmente uma visão pessimista da humanidade: ele não nos permite separar confortavelmente os bons dos maus.

    A própria escrita contribui para essa sensação de desorientação. Os longos períodos, os diálogos incorporados aos parágrafos e a pontuação característica de Saramago podem causar estranhamento no início. Aos poucos, porém, o leitor aprende a reconhecer as vozes quase da mesma maneira que os personagens precisam aprender a reconhecer uns aos outros sem poder vê-los. A forma deixa de ser apenas uma característica estilística e passa a participar da experiência da leitura.

    Ao final, a pergunta mais importante já não é o que provocou a epidemia. Saramago nunca transforma o romance em uma investigação sobre a origem da cegueira, porque sua preocupação parece estar em outro lugar. O que interessa é aquilo que se revela quando todos deixam de ver. A indiferença, o egoísmo, o abuso de poder e a facilidade com que nos acostumamos ao sofrimento alheio não nasceram com a epidemia. A cegueira apenas tornou impossível continuar fingindo que não estavam ali.

    Talvez seja por isso que Ensaio sobre a Cegueira permaneça tão atual. É possível enxergar perfeitamente e escolher não reparar no que está diante dos olhos. Podemos nos habituar à injustiça, transformar a miséria em parte da paisagem, reconhecer imediatamente a violência quando ela vem de quem condenamos e encontrar justificativas quando vem de quem queremos defender. A cegueira de Saramago não está apenas nos olhos de seus personagens. Está na possibilidade, profundamente humana, de ver sem realmente enxergar.

    No fim, quando a visão retorna, não há garantia de que alguma coisa tenha sido definitivamente aprendida. E talvez esteja aí a provocação mais incômoda do romance. Recuperar os olhos é relativamente simples; aprender a olhar é outra coisa. A frase que acompanha a obra resume esse convite de maneira quase brutal: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”

    Depois de mais de trezentas páginas cercados por pessoas que não enxergam, Saramago devolve ao leitor uma pergunta da qual é muito mais difícil escapar: e nós, o que fazemos com aquilo que vemos?

  • 1984

    Resenha de 1984, de George Orwell: quem controla a verdade controla o passado

    Há livros que envelhecem. Outros parecem adquirir novas camadas à medida que o mundo muda. 1984, publicado por George Orwell em 1949, pertence a essa segunda categoria. Expressões como Grande Irmão, Polícia do Pensamento, duplipensar e Ministério da Verdade ultrapassaram há muito as páginas do romance e passaram a integrar o vocabulário político contemporâneo. Talvez justamente por isso exista um risco ao lê-lo hoje: acreditar que já conhecemos 1984 antes mesmo de abrir o livro. Orwell, porém, construiu algo muito mais inquietante do que uma história sobre um governo que vigia seus cidadãos. Na Oceânia, o poder não pretende apenas controlar aquilo que as pessoas fazem. Seu projeto é muito mais ambicioso: determinar aquilo que elas podem conhecer, lembrar e, finalmente, pensar.

    Um homem tentando preservar a própria mente

    Winston Smith vive em uma sociedade submetida ao Partido e à presença permanente do Grande Irmão. As teletelas observam, as palavras são controladas, os comportamentos despertam suspeitas e até uma expressão facial inadequada pode denunciar alguém. Mas talvez o aspecto mais perturbador da vida de Winston seja seu próprio trabalho. Ele atua no Ministério da Verdade, justamente o lugar em que a realidade é continuamente reconstruída para se ajustar às necessidades do poder. Notícias antigas são modificadas, previsões equivocadas desaparecem, antigos aliados tornam-se inimigos e pessoas eliminadas pelo regime podem simplesmente deixar de ter existido. O passado precisa concordar permanentemente com aquilo que o Partido afirma no presente.

    É nesse ponto que 1984 deixa de ser apenas uma história sobre censura e se transforma em uma reflexão sobre a fragilidade da memória. Se documentos podem ser alterados, testemunhos apagados e registros destruídos, onde a verdade poderá sobreviver? Winston tenta preservá-la no último território que ainda acredita possuir: a própria consciência. Por isso, um gesto aparentemente insignificante — escrever secretamente em um diário — adquire uma dimensão extraordinária. Antes de qualquer tentativa de derrubar o regime, sua rebelião começa pela necessidade de registrar aquilo que viu e aquilo de que ainda consegue se lembrar.

    Quando a linguagem encolhe, o pensamento também

    Entre as ideias mais inquietantes criadas por Orwell está a Novilíngua, idioma que o Partido modifica deliberadamente para reduzir progressivamente o número de palavras disponíveis. A lógica é simples e assustadora: se determinadas palavras desaparecerem, alguns pensamentos se tornarão cada vez mais difíceis de formular. O objetivo não é apenas impedir que uma ideia seja pronunciada, mas reduzir gradualmente a própria possibilidade de concebê-la.

    Orwell percebe que a linguagem não serve apenas para comunicar pensamentos já existentes; ela participa da maneira como organizamos e compreendemos o mundo. Controlar as palavras significa, portanto, estreitar o espaço no qual determinadas ideias podem nascer. Um regime que consiga limitar suficientemente a linguagem talvez não precise mais proibir certas opiniões, porque terá construído uma sociedade na qual elas se tornaram praticamente impensáveis. A censura, nesse estágio, já não necessita apenas destruir livros ou silenciar vozes: ela passa a operar dentro da própria estrutura do pensamento.

    Winston e Júlia: quando a intimidade se torna rebelião

    É nesse mundo que Winston encontra Júlia. A relação entre os dois introduz algo que o Partido procura eliminar: intimidade, desejo, confiança e uma experiência que pertence exclusivamente aos indivíduos envolvidos. O amor torna-se político justamente porque cria um território privado. Enquanto o regime exige que toda lealdade seja dirigida ao Grande Irmão, Winston e Júlia constroem, ainda que provisoriamente, uma pequena realidade particular.

    Durante algum tempo, acreditam que esse espaço poderá permanecer fora do alcance do poder. É uma ilusão. Na Oceânia, controlar o espaço público não basta. O Partido precisa penetrar também naquilo que cada pessoa considera íntimo, porque qualquer vínculo suficientemente forte pode competir com a fidelidade exigida pelo regime. O que existe entre Winston e Júlia é perigoso não apenas porque desobedece às regras, mas porque demonstra que ainda pode existir alguma coisa sobre a qual o Partido não tenha autoridade absoluta.

    Dois mais dois podem ser cinco?

    Talvez a pergunta mais inquietante do romance não seja sobre vigilância, mas sobre a própria realidade. Um poder que obriga alguém a repetir uma mentira ainda não conquistou completamente essa pessoa, porque ela pode obedecer externamente e continuar sabendo, em silêncio, que aquilo é falso. A vitória absoluta exige algo diferente: é necessário que o indivíduo abandone a confiança na própria percepção e aceite como verdade aquilo que o poder determina.

    É nesse território que aparece o duplipensar, a capacidade de aceitar simultaneamente ideias contraditórias e adaptar a memória às necessidades do presente. Orwell leva assim a manipulação política ao seu limite. O Partido não deseja apenas obediência; deseja controlar os critérios pelos quais uma pessoa distingue o verdadeiro do falso. A famosa questão de dois mais dois serem quatro ou cinco deixa de ser um problema matemático. Torna-se uma pergunta sobre quem possui autoridade para definir a realidade.

    O quarto 101 e o limite da resistência

    A trajetória de Winston conduz inevitavelmente ao lugar mais temido do Ministério do Amor: o quarto 101. Não existe ali uma tortura idêntica para todos. Existe aquilo que cada indivíduo é incapaz de suportar. Para Winston, são os ratos. E é justamente diante de seu terror mais profundo que acontece a derrota que nenhuma vigilância, propaganda ou violência anterior havia conseguido produzir completamente.

    Winston não entrega apenas informações. Ele pede que aquilo seja feito a Júlia em seu lugar. Nesse momento, Orwell destrói uma esperança bastante confortável: a ideia de que existe dentro de cada pessoa um núcleo necessariamente inviolável, um último território que nenhum poder conseguirá alcançar. O Partido encontra esse território e o quebra. A violência mais profunda do regime não está simplesmente em fazer Winston sofrer, mas em destruir aquilo que ainda o ligava a outra pessoa e, com isso, reconstruí-lo segundo a vontade do poder.

    Quando o vigiado aprende a vigiar a si mesmo

    Uma das razões pelas quais 1984 permanece tão perturbador é que costumamos imaginar a vigilância como alguém permanentemente nos observando. Orwell percebe algo mais sofisticado. Quando as pessoas sabem que podem estar sendo observadas, começam a modificar espontaneamente o próprio comportamento. Aos poucos, já não é necessário que exista alguém olhando o tempo inteiro. A possibilidade do olhar torna-se suficiente.

    Nesse estágio, a vigilância deixa de depender exclusivamente das teletelas. Ela passa a habitar os gestos, as palavras e até as expressões faciais. Depois, espalha-se entre os próprios cidadãos, que aprendem a observar uns aos outros. O sistema alcança sua forma mais eficiente quando o indivíduo internaliza o vigilante e passa a censurar a si mesmo antes que qualquer autoridade precise fazê-lo.

    1984 não serve apenas para reconhecer o autoritarismo dos outros

    Talvez seja aqui que a leitura de Orwell se torne particularmente desconfortável. É relativamente fácil reconhecer propaganda, manipulação, culto à personalidade e distorção dos fatos quando esses mecanismos aparecem no grupo político que rejeitamos. Muito mais difícil é conservar o mesmo rigor quando surgem entre aqueles com quem nos identificamos. A tentação de relativizar uma mentira conveniente, ignorar uma contradição ou aceitar sem questionamento uma versão favorável aos nossos próprios interesses não pertence exclusivamente a regimes totalitários; pertence também às fragilidades humanas das quais esses regimes sabem se aproveitar.

    Nesse momento, 1984 deixa de ser apenas uma distopia sobre uma sociedade imaginária e devolve a pergunta ao leitor. Quantas vezes rejeitamos uma informação porque temos razões para considerá-la falsa, e quantas vezes simplesmente porque ela ameaça aquilo em que já decidimos acreditar? Orwell não nos oferece a posição confortável de espectadores situados fora da história. Ao contrário, obriga-nos a considerar a possibilidade de que também carreguemos, em pequena escala, nossos próprios Ministérios da Verdade.

    Por que ler 1984 hoje?

    Não porque vivamos literalmente na Oceânia. Aliás, transformar qualquer discordância política, mudança de linguagem ou tecnologia de vigilância em uma prova de que “estamos vivendo 1984” talvez seja uma das maneiras mais fáceis de empobrecer o romance. A força do livro está justamente em permitir reconhecer mecanismos sem exigir que a realidade reproduza integralmente sua ficção.

    Vale ler Orwell porque ele compreendeu processos que não pertencem exclusivamente a uma época: a manipulação da linguagem, a reconstrução conveniente do passado, a fabricação permanente de inimigos, o medo como instrumento político, o culto à personalidade e a facilidade humana de conviver com contradições quando elas preservam certezas às quais não queremos renunciar. Mas talvez sua advertência mais poderosa esteja em algo ainda mais elementar. Winston começa sua rebelião não empunhando uma arma, mas tentando preservar uma lembrança e escrevendo palavras que ninguém deveria ler. Antes de controlar inteiramente uma sociedade, o poder precisa disputar uma coisa muito menor e, ao mesmo tempo, muito mais preciosa: a capacidade de cada indivíduo confiar na própria memória, confrontar versões e continuar fazendo perguntas.

    Talvez seja por isso que 1984 continue incomodando tantos anos depois. O Grande Irmão ainda não venceu quando consegue obrigar alguém a repetir uma mentira. Ele vence quando essa pessoa já não sente necessidade de perguntar se aquilo é verdade.</div>

  • A Chave na Caixa

    A casa estava virada ao avesso. Tralhas espalhadas por todo lado, coisas pelas quais nem um brechó de quinta categoria pagaria um centavo. Por que raios alguém guardaria tanta bugiganga? Papéis amarelados, apólices, promessas falsas, contrato de compra e venda. Em meio a tudo, caixas vazias. As portas do guarda-roupa estavam entreabertas — a última gaveta parecia o resto de uma vida prestes a ser despejada na calçada. Ela parou diante do armário.

    Retirou os primeiros cabides sem hesitar. Jogou-os sobre a cadeira de palha, cujo assento já cedia sob o peso daquela bagagem. Mais uma investida, agora um casaco de lã grossa e desbotada. Num gesto automático, apalpou o tecido. Havia algo no bolso. Suas mãos, firmes até ali, hesitaram. Os dedos tatearam no fundo do forro e esbarraram em uma quina de metal frio. Era a chave, intacta, esperando na escuridão do bolso.

    Como pode um objeto levar alguém ao inferno em questão de segundos? Não era pesada, mas segurava uma tonelada. Representava o peso do concreto, dos azulejos, de todos os cômodos que materializavam um sonho realizado que ruiu.

    Olhou para o metal e viu o atestado de sua própria ingenuidade. A certeza tardia de ter sido enganada no afeto, na confiança e no futuro. Tinha gastado anos erguendo paredes sobre um terreno que nunca foi dela. Estava de volta ao ponto de partida. Era a pior de todas as suas lembranças.

    Ela não chorou. O tempo do pranto já havia secado junto com a papelada que agora forrava o chão. Caminhou até a caixa de papelão onde amontoara os contratos inúteis. Abriu a mão. A chave caiu com um ruído seco e metálico.

    Fechou a caixa e passou a fita adesiva. Sobrava apenas ela, no meio da sala vazia. Sem nada, sozinha, mas inteira. Caminhou até a porta, pronta para o silêncio que agora, finalmente, significava paz.

  • FAHRENHEIT 451

    Há livros cuja história conhecemos antes mesmo de lê-los. Sabemos o que representam, reconhecemos suas imagens, ouvimos referências às ideias que atravessaram gerações e, quando finalmente abrimos suas páginas, temos a impressão de entrar em um mundo que, de algum modo, já conhecíamos. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, é um desses livros.

    Fahrenheit 451: quando queimar livros já não é suficiente

    Há distopias que imaginam um futuro assustador porque o Estado proíbe o pensamento. Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, é mais inquietante: mostra uma sociedade em que talvez já nem seja preciso proibi-lo. Basta torná-lo incômodo, lento e desnecessário.

    Publicado em 1953, o romance apresenta um mundo no qual os bombeiros não apagam incêndios. Eles os provocam. Livros são proibidos, encontrados e queimados — e 451 graus Fahrenheit seria a temperatura em que o papel entra em combustão.

    Guy Montag é um desses bombeiros. Cumpre seu trabalho, veste seu uniforme e participa da destruição dos livros sem questionar seriamente o mundo ao qual pertence. Até encontrar Clarisse, uma jovem cuja estranheza consiste em fazer algo perigosíssimo: perguntar.

    A partir desse encontro, Bradbury constrói uma transformação que não acontece por meio de uma grande revelação, mas pelo surgimento progressivo da dúvida. Montag começa a perceber o vazio escondido sob a velocidade, o entretenimento permanente e a aparente felicidade daquela sociedade. Há telas por toda parte, ruído constante, informações rápidas e relações cada vez mais superficiais. O silêncio se torna desconfortável porque, no silêncio, ainda existe a possibilidade de pensar.

    É justamente aí que Fahrenheit 451 ultrapassa a imagem mais famosa do livro: a fogueira.

    Queimar livros é apenas a etapa visível de um processo que começa muito antes. Uma sociedade não precisa destruir fisicamente seus livros se conseguir produzir pessoas que já não desejam lê-los. Não precisa censurar cada ideia quando a reflexão se torna cansativa demais diante da facilidade do entretenimento imediato. O desaparecimento do pensamento crítico pode ocorrer não apenas pela repressão, mas também pela distração.

    E talvez seja essa a dimensão mais perturbadora do romance para o leitor contemporâneo.

    Bradbury escreveu antes das redes sociais, dos smartphones, dos vídeos de poucos segundos e dos algoritmos que disputam continuamente nossa atenção. Ainda assim, ao descrever indivíduos cercados por enormes telas, permanentemente entretidos e progressivamente incapazes de permanecer em silêncio consigo mesmos, criou imagens que hoje parecem desconfortavelmente familiares.

    Isso não transforma Fahrenheit 451 numa profecia tecnológica. O problema central nunca foi simplesmente a tecnologia. É aquilo que fazemos com nossa capacidade de escolher entre o esforço de pensar e o conforto de receber pensamentos prontos.

    Os livros, portanto, importam menos como objetos do que como símbolos. Eles guardam contradições, experiências, dúvidas e ideias incompatíveis entre si. Exigem tempo. Às vezes incomodam. Frequentemente não oferecem respostas rápidas. E exatamente por isso representam uma ameaça a qualquer sociedade que prefira cidadãos satisfeitos a indivíduos capazes de questionar.

    Montag descobre, aos poucos, que preservar livros significa preservar algo ainda mais difícil de controlar: a possibilidade de pensar diferente.

    Mais de sete décadas depois de sua publicação, talvez a pergunta mais interessante de Fahrenheit 451 já não seja:

    “O que aconteceria se começassem a queimar nossos livros?”

    Talvez seja outra:

    Se ninguém precisasse queimá-los, porque simplesmente deixássemos de lê-los, perceberíamos a diferença? 🔥📚

  • Resenha de A Revolução dos Bichos, de George Orwell: “Todos os bichos são iguais…”

    Há livros cuja história conhecemos antes mesmo de lê-los. Sabemos o que representam, reconhecemos algumas de suas frases, ouvimos referências aos seus personagens e, quando finalmente abrimos suas páginas, temos a impressão de que já sabemos o que encontraremos ali. A Revolução dos Bichos, de George Orwell, é um desses livros.

    Capa e ficha técnica do livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell, edição da Companhia das Letras

    Sobre o que é A Revolução dos Bichos?

    Uma fazenda, animais explorados por um proprietário negligente, um velho porco que lhes fala sobre liberdade, uma revolução, a expulsão do homem e o nascimento de uma sociedade fundada sobre uma promessa aparentemente simples: nenhum animal voltaria a subjugar outro animal. Mas talvez a pergunta mais interessante sobre A Revolução dos Bichos não seja por que a revolução fracassou. Talvez seja outra: em que momento os animais perderam a revolução que acreditavam ter conquistado?

    A resposta seria muito mais confortável se pudéssemos apontar uma página, um acontecimento ou uma decisão e dizer: foi aqui. Neste instante os ideais morreram e começou a tirania. Orwell não nos oferece esse conforto. A perda acontece aos poucos, e talvez seja exatamente por isso que essa pequena fábula publicada em 1945 continue tão perturbadora.

    Major apresenta aos animais da Granja do Solar um sonho de libertação. O homem é identificado como aquele que se apropria do trabalho alheio, consome sem produzir e mantém os animais submetidos a uma existência de exploração. Se o homem desaparecer, acreditam eles, desaparecerá também a opressão. A revolução nasce, portanto, de uma experiência real de injustiça.

    Quando Jones é expulso e a Granja do Solar se transforma na Granja dos Bichos, há um breve momento em que tudo parece possível. Os animais trabalham para si mesmos, aquilo que produzem lhes pertence e os princípios da nova sociedade são escritos na parede do celeiro para que ninguém esqueça por que lutaram. Há algo quase comovente nesse início: eles acreditam. E talvez toda revolução precise, antes de qualquer outra coisa, de pessoas — ou bichos — capazes de acreditar que o mundo pode ser diferente.

    Poder, linguagem e manipulação

    O problema começa quando alguém passa a decidir o que esse mundo diferente deverá ser. Bola-de-Neve e Napoleão rapidamente ocupam posições de liderança. Ambos são porcos, considerados os animais mais inteligentes da fazenda, e essa diferença aparentemente funcional começa a produzir uma diferença política. Primeiro eles organizam, depois interpretam, em seguida decidem, até que um deles descobre que não precisa mais convencer. Napoleão cria os cães e, a partir daquele momento, a discussão deixa de ser necessária porque o poder já possui dentes.

    Mas seria simples demais dizer que os animais foram dominados apenas pela força. Se fossem somente os cães que sustentassem o novo regime, A Revolução dos Bichos talvez fosse apenas uma história sobre tirania. Orwell escreve algo muito mais incômodo. Ao lado dos cães está Garganta. E Garganta não ameaça: Garganta explica. Explica por que os porcos precisam das maçãs e do leite, por que Napoleão tomou determinada decisão e por que aquilo que os animais se lembram de ter acontecido talvez não tenha acontecido exatamente daquela maneira. Quando a realidade entra em conflito com o poder, não é necessariamente a realidade que vence.

    Pouco a pouco, a memória dos animais começa a falhar — ou, mais precisamente, eles começam a desconfiar da própria memória. Os mandamentos escritos no celeiro mudam. Uma palavra é acrescentada, uma condição aparece onde antes não existia, uma regra absoluta ganha uma pequena exceção e, diante da parede modificada, os animais hesitam: talvez sempre estivesse escrito assim. É nesse ponto que Orwell toca em algo muito maior do que a história de uma revolução específica. O domínio mais eficiente não é aquele que simplesmente proíbe alguém de dizer a verdade, mas aquele capaz de interferir na própria capacidade de reconhecer o que é verdade.

    Enquanto Garganta reorganiza a realidade, as ovelhas repetem. Elas não precisam compreender, precisam apenas repetir suficientemente alto e por tempo suficiente. A repetição ocupa o espaço onde poderia existir uma pergunta.

    Sansão: quando a lealdade se transforma em submissão

    Talvez um dos personagens mais dolorosos do livro não seja um dos porcos, mas Sansão. Diante de cada dificuldade, ele responde aumentando o próprio esforço. Sua força, sua disciplina e sua lealdade poderiam ser virtudes; sob um sistema que aprende a explorá-las, tornam-se instrumentos de sua submissão. Quando algo dá errado, sua conclusão não é questionar quem decide, mas trabalhar mais e confiar ainda mais em Napoleão.

    Há uma crueldade particular nisso: não é o pior dos animais que paga o preço mais alto pela nova ordem. É justamente aquele que mais acredita nela.

    Enquanto isso, os privilégios deixam de parecer privilégios e passam a ser apresentados como necessidades. Os porcos precisam comer melhor porque pensam pelos demais, precisam ocupar a casa porque carregam responsabilidades maiores, precisam tomar decisões porque os outros talvez não sejam capazes de compreendê-las. A desigualdade não retorna anunciando “a partir de hoje, não somos mais iguais”. Ela retorna acompanhada de justificativas. E talvez esteja aí uma das observações mais brilhantes de Orwell sobre o poder: raramente aqueles que constroem privilégios os apresentam como privilégios. Preferem descrevê-los como responsabilidade, competência, necessidade ou sacrifício.

    Em que momento os animais perderam a revolução?

    Quando percebemos, os animais que expulsaram os homens para nunca mais terem senhores estão novamente diante de senhores. Apenas mudaram aqueles que seguram o chicote.

    E então voltamos à pergunta inicial: em que momento os animais perderam a revolução? Quando permitiram que os porcos fossem os únicos intérpretes dos princípios? Quando aceitaram a primeira exceção? Quando os cães expulsaram Bola-de-Neve? Quando deixaram de confiar na própria memória? Quando as ovelhas aprenderam a repetir antes de pensar? Quando Sansão decidiu que a resposta para qualquer injustiça era trabalhar ainda mais?

    Talvez não exista uma resposta. Talvez tenham perdido um pouco de cada vez. E essa possibilidade é muito mais desconfortável, porque grandes rupturas são fáceis de reconhecer. O difícil é perceber pequenas concessões feitas diariamente em nome de uma causa que continuamos jurando defender.

    Orwell estava falando de Stálin — mas não apenas de Stálin

    Ignorar o contexto histórico de A Revolução dos Bichos seria retirar da obra uma parte essencial de sua força. Orwell escreveu sua fábula durante a Segunda Guerra Mundial e a publicou em 1945. A União Soviética de Stálin é uma referência evidente: Napoleão remete a Stálin, Bola-de-Neve a Trotsky, e episódios como os expurgos, a perseguição aos opositores, a construção de um aparato repressivo e a reescrita do passado encontram correspondência na experiência soviética.

    Mas há uma ironia importante nessa história. Orwell não era um conservador empenhado em atacar qualquer projeto socialista. Ele próprio se declarava socialista e fez da crítica ao totalitarismo, à propaganda e à manipulação da verdade uma parte fundamental de sua obra. Com a Guerra Fria, A Revolução dos Bichos acabou sendo apropriada no Ocidente como instrumento ideológico contra o comunismo — uma leitura que, quando reduz o livro a isso, corre o risco de aprisionar a obra justamente no tipo de simplificação política que Orwell combatia.

    Reconhecer que a União Soviética stalinista está na origem da sátira não significa condenar o livro a permanecer ali. Uma obra pode nascer de uma circunstância histórica e, ainda assim, dizer algo que a ultrapassa. E talvez a permanência de A Revolução dos Bichos esteja justamente nisso: Orwell escreveu sobre uma revolução específica, mas acabou expondo mecanismos de poder que não possuem partido, bandeira ou época exclusivos.

    É aí que a fazenda deixa de pertencer apenas a 1945.

    A fazenda não ficou em 1945

    Seria confortável fechar A Revolução dos Bichos e deixá-la onde foi escrita: na Europa do século XX, sob a sombra do stalinismo, das revoluções e dos regimes totalitários. Mas a fazenda de Orwell envelheceu melhor do que gostaríamos. Mudaram os muros, os slogans e os meios pelos quais as palavras chegam até nós. O mecanismo, porém, continua estranhamente familiar.

    Ainda vemos líderes que chegam ao poder prometendo combater privilégios e, uma vez instalados nele, encontram argumentos cada vez mais sofisticados para justificar os próprios. Ainda vemos princípios tratados como absolutos enquanto limitam os adversários e reinterpretados quando começam a limitar aqueles que governam. Ainda vemos versões do passado sendo disputadas até que fatos cedam lugar a narrativas mais convenientes.

    E talvez nunca tenhamos tido tantas ovelhas. Elas agora não precisam estar reunidas diante de um celeiro: carregam seus slogans no bolso, repetem frases, compartilham palavras de ordem, reproduzem vídeos de poucos segundos e transformam questões complexas em sentenças suficientemente curtas para caber em uma tela. A repetição ganhou velocidade.

    Garganta também não precisa mais percorrer a fazenda explicando o inexplicável. Existem porta-vozes, influenciadores, comentaristas, militantes e algoritmos capazes de entregar a cada grupo a versão da realidade que ele está mais disposto a aceitar. E talvez aqui exista uma diferença inquietante entre a fazenda de Orwell e a nossa: os animais dependiam de Garganta para receber a narrativa; nós frequentemente a procuramos por vontade própria. Escolhemos quem queremos ouvir, seguimos aqueles que confirmam aquilo em que já acreditamos, compartilhamos antes de verificar e, quando uma informação ameaça nossas convicções, muitas vezes questionamos a informação antes de questionar a convicção.

    Talvez os mandamentos já nem precisem ser apagados durante a noite. Basta que existam versões suficientes deles.

    Isso não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda, a conservadores ou progressistas, a um governo ou a outro. Transformar Orwell em arma de um único campo político seria reproduzir justamente a simplificação que seu livro nos permite questionar. Toda vez que a fidelidade a um grupo se torna mais importante do que a possibilidade de criticá-lo, alguma coisa da Granja dos Bichos reaparece. Toda vez que uma mentira é tolerada porque foi dita “pelos nossos”, uma palavra começa a ser acrescentada ao mandamento. Toda vez que exigimos do adversário um princípio que estamos dispostos a relativizar quando ele alcança nosso próprio lado, a igualdade começa a ganhar uma pequena ressalva.

    Por que A Revolução dos Bichos continua atual?

    Talvez seja justamente por isso que Orwell continue atual. Não porque tenha previsto nossos políticos, nossas redes sociais ou nossos algoritmos, mas porque compreendeu algo muito mais antigo: o poder muda de mãos com muito mais facilidade do que muda de natureza.

    No início da revolução, os animais haviam escrito princípios para impedir que qualquer um deles se tornasse aquilo que haviam combatido. No final, resta apenas um:

    “Todos os bichos são iguais…”
    O poder apenas trocou de rosto.

    O restante da frase transforma uma promessa de igualdade em sua própria caricatura.
    Quando, através da janela, os animais observam porcos e homens sentados à mesma mesa e já não conseguem distinguir uns dos outros, Orwell fecha o círculo. A revolução venceu, os homens foram expulsos e a velha ordem foi destruída. E, ainda assim, alguma coisa permaneceu intacta.

    O poder apenas trocou de rosto.

  • Filosofia de Balcão: O Clássico dos Pano-Pretos e a Geopolítica da Cerveja Quente

    Valeria Tostes Salles

    O sábado à tarde tem uma física própria. O tempo dilata entre o primeiro gole de uma pilsen genérica e o momento exato em que o garçom traz a conta com os 10% que ninguém quer calcular. No bar do Seu Zé — esse verdadeiro microcosmo do Brasil profundo —, a mesa de plástico amarela da Skol funciona como o plenário do Supremo, o tribunal de Haia e a arquibancada do Maracanã, tudo compactado sob o aroma de gordura hidrogenada e o barulho de geladeira velha.

    A conversa começou, como sempre, disfarçada de amenidade. Era para ser apenas o rescaldo do Fla-Vasco da semana. Mas futebol neste país nunca foi apenas chutar uma esfera de couro sintético; futebol é transferência de agressividade diplomática. Em menos de três rodadas de chope, o impedimento mal marcado do atacante rubro-negro já não era mais um erro de arbitragem. Virou, por uma contorção retórica digna de um sofista grego embriagado, o estopim para debater o caso Moraes x Mendonça.

    — O VAR é o reflexo da ditadura da toga! — gritou o vascaíno da ponta, batendo o copo americano na mesa com a fúria de quem invoca Jürgen Habermas sem nunca ter lido uma orelha de livro. — Se o juiz de campo deu, o árbitro de vídeo não tinha que meter o bedelho. É o ativismo judicial das quatro linhas!

    Do outro lado, o flamenguista, vestindo uma camisa desbotada e empunhando um espetinho de coração como se fosse um cetro absolutista, rebateu na velocidade de uma notificação de rede social:

    — Ativismo nada! É a garantia da ordem institucional do campeonato! Se a gente deixar o critério na mão da barbárie da torcida, o jogo acaba. Sem o Moraes do apito para segurar as pontas, a República do Futebol desmorona. De invasão de campo e vandalismo patrimonial a gente já entende. Quem não aceita o resultado do placar e quer quebrar as vidraças do tribunal — seja no gramado ou na Praça dos Três Poderes naquele fatídico 8 de janeiro — não quer justiça, quer é melar o campeonato porque o esquema do seu time caiu!

    O vascaíno engoliu em seco, sentindo o peso da analogia. O torcedor do Flamengo, figura pedagógica do pragmatismo popular, desenhou ali o maior paradoxo da nossa era: o homem comum precisando explicar para o bacharel de terno que a democracia, assim como o campeonato brasileiro, só funciona se todo mundo aceitar que o juiz — por mais antipático que seja — tem o direito de apitar o fim do jogo.

    No auge do impasse, quando as esferas do poder e do futebol já tinham se fundido em um amálgama incompreensível de rancor, surgiu o fantasma que assombra qualquer boteco do Oiapoque ao Chuí: a velha e boa hipocrisia de conveniência. A máxima jurídica popular que rege as relações sociais por aqui foi evocada em alto e bom som: o pau que bate em Chico, convenientemente, esqueceu de bater em Francisco.

    — Engraçado — ponderou o isentão da mesa, que só estava ali pelos petiscos —, o “Mendonça do apito” adora dar uma de xerife moralista e rigoroso quando a falta é do rival. Mas quando o Flávio Bolsonaro dá aquele drible desconcertante nas regras do campeonato, ele simplesmente olha para o lado e engole o apito. Fez um malabarismo retórico, atropelou o rito da arbitragem, ignorou o VAR e fingiu que as faltas violentas do garoto e de outros amigos de farda eram só “lance normal de jogo”. Pro Francisco da “rachadinha” e do Banco Master, é tapete vermelho e vista grossa; pro Chico da oposição, é o rigor implacável da lei e vazamento seletivo de áudio para a imprensa.

    O flamenguista engasgou com a pilsen, enquanto o vascaíno tentava achar no celular um argumento jurídico que justificasse como o favoritismo “terrivelmente evangélico” virou regra hermenêutica no STF e no gramado. A coerência durou exatamente até o limite do interesse próprio.

    O silêncio que se seguiu não foi de reflexão filosófica; foi o prenúncio da física dos corpos. O debate teológico-político-esportivo atingiu o seu ápice estético quando os argumentos verbais escassearam e a gravidade entrou em ação. A divergência sobre a blindagem dos amigos resolveu-se na mais pura tradição do iluminismo de botequim: o risco de uma garrafada.

    Uma garrafa de vidro de 600ml foi erguida no ar, desenhando uma parábola ameaçadora contra a luz do entardecer. O perigo iminente de um traumatismo craniano cortou o nó górdio da discussão. Mas o detalhe mais maravilhoso da modernidade é que a violência física hoje dá preguiça. O esforço biomecânico de quebrar uma garrafa na cabeça do próximo exige um gasto calórico que o sedentarismo digital não comporta.

    A garrafa voltou à mesa com um baque seco. O vascaíno pegou o celular. O flamenguista destravou a tela do dele.

    Em menos de trinta segundos, os dois homens que quase se mataram por causa de Alexandre de Moraes, André Mendonça, a escalação do Vasco e a dignidade do Chico e do Francisco, estavam sentados lado a lado, em absoluto silêncio físico, bloqueando-se mutuamente no WhatsApp e digitando textões furiosos no X.

    O bar voltou ao seu estado de letargia natural. A discussão, grande demais para o ambiente analógico, transbordou para o infinito do virtual, onde o ódio não sangra, não quebra copos e — o melhor de tudo — pode ser monetizado.

    Olhando de fora, pago a minha conta e recolho minhas coisas. Há quem olhe para o botequim, para o estádio ou para as redes e sinta um desprezo elitista por esse Brasil de massas. Eu não. Eu me sinto uma privilegiada por fazer parte dela, por estar aqui no asfalto onde as contradições pulsam sem filtro. Mas não se enganem com o meu disfarce de torcedora comum: pertenço à massa, mas assisto ao jogo com o martelo na mão. Um martelo pesado, pronto para ser usado implacavelmente toda vez que o discurso dos que juram defender a moral não soar no ritmo da coerência — seja para blindar o Francisco de sempre, seja para usar o Chico como bode expiatório.

    No final, a filosofia de balcão provou sua tese: a engrenagem continua girando não porque busca a justiça, mas porque precisa manter o espetáculo vivo. No campo ou no tribunal, as regras mudam conforme o freguês, e a nós resta apenas a lucidez de não aplaudir o teatro.

    Garçom, fecha a conta. E que o juiz aprenda a apitar o jogo direito.

     

     

  • O Bigode na fila do SUS

     

       O BIGODE NA FILA DO SUS 

         O ALÉM-DO-HOMEM E O AQUÉM-DO-CUSTO

    Entrar em um hospital de elite ou cruzar os tapetes aveludados de um tribunal de justiça exige do observador atento uma calibração cromática instantânea. O contraste é cirúrgico. Nas salas de cirurgia e nas cadeiras de couro dos magistrados, impera uma brancura quase asséptica, intocada. Nos postos de enfermagem, nas bandejas de medicação e nos macacões da manutenção, o contingente é massivamente preto e pardo. Dizem os defensores da ordem vigente que se trata de uma simples distribuição de mérito; que os primeiros “se esforçaram mais” que os segundos.

    Friedrich Nietzsche, com seu bigode imponente e sua arrogância aristocrática, provavelmente sorriria diante da cena. O filósofo alemão desprezava a ideia de igualdade. Para ele, o mundo dividia-se entre os fortes — capazes de criar seus próprios valores através da “vontade de potência” — e o rebanho, destinado à mediocridade. É precisamente nesse ponto que a extrema-direita contemporânea opera o seu maior malabarismo retórico. Apropriam-se do discurso da força e do desprezo pela vulnerabilidade para sustentar o mito da meritocracia, disparando contra qualquer política de reparação ou assistencialismo. Sob essa narrativa, programas de transferência de renda seriam “fábricas de dependência do Estado”, muletas ideológicas usadas para fins eleitorais por uma massa supostamente incapaz de caminhar com as próprias pernas.

    A grande farsa desse castelo de cartas meritocrático reside no esquecimento proposital da linha de largada. É confortável pregar o darwinismo social quando se nasce protegido por heranças materiais e simbólicas. Do motorista de Uber ao médico, a farsa opera em escalas distintas, mas com a mesma eficácia anestésica. Enquanto o profissional da medicina de elite atribui sua cadeira confortável puramente ao mérito de suas noites de estudo — ignorando a barreira invisível do cursinho particular e o suporte financeiro familiar —, o motorista de aplicativo, precarizado e sem direitos, é seduzido pela narrativa de que é o “empresário de si mesmo”. É o nascimento do pobre de direita: o sujeito que defende com unhas e dentes a desregulamentação trabalhista que o sufoca. Na ânsia de se diferenciar do “rebanho assistenciado”, ele se coloca virtualmente no mesmo patamar do patrão. Esquece que, para a elite que ele emula, ele nunca será um par; será sempre o contingente subalternizado, a peça descartável que financia o bônus da plataforma. É o oprimido com a psicologia do senhor, mas com o tanque de combustível na reserva.

    A ironia atinge o seu ápice poético e cruel quando o infortúnio bate à porta. O mesmo sujeito que infla o peito para atacar o assistencialismo estatal é engolido pela realidade concreta na primeira curva da vida. Basta uma doença crônica na família, um acidente de trânsito que destrua o instrumento de trabalho ou uma crise econômica que zere as poupanças para que a altivez desabe. Sem o amparo dos herdeiros do topo, o “empreendedor de si mesmo” descobre que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. É na fila do hospital público ou na secretaria de assistência social que ele se vê obrigado a recorrer justamente à rede de proteção que passou a vida demonizando. O lobo solitário da retórica de internet descobre, da pior forma, que a meritocracia não passa de um sedativo moral criado pelos ricos para que possam dormir em paz enquanto os oprimidos idealizam o chicote que os açoita.

    A grande pergunta que resta, e que faria o pensador alemão engasgar com o próprio café, é de ordem puramente material: se Nietzsche não tivesse nascido na Saxônia, financiado por uma confortável pensão acadêmica, mas sim na periferia de uma metrópole brasileira, ele teria defendido as mesmas ideias? Se sua genialidade estivesse aprisionada no corpo de um jovem pardo, cumprindo plantões duplos como técnico de enfermagem para pagar o transporte, ele ainda escreveria sobre o Übermensch? Ou seria ele o primeiro a entender que a sobrevivência exige laços coletivos, e não o isolamento altivo dos fortes? Sob a lógica implacável da escassez, a “vontade de potência” de um Nietzsche retinto seria esmagada na primeira triagem do subemprego. Fora do cercado de privilégios, o aristocrata vira apenas mais uma estatística da exclusão, provando que o deserto da realidade não perdoa quem escolhe aplaudir o próprio carrasco.