Entre Livros e Ideias

Entre Livros e Ideias — resenhas, reflexões e crônicas sobre os grandes autores que atravessaram os séculos, por Valeria Tostes.

Filosofia de Balcão: O Clássico dos Pano-Pretos e a Geopolítica da Cerveja Quente

Filosofia de Balcão: O Clássico dos Pano-Pretos e a Geopolítica da Cerveja Quente

Valeria Tostes Salles

O sábado à tarde tem uma física própria. O tempo dilata entre o primeiro gole de uma pilsen genérica e o momento exato em que o garçom traz a conta com os 10% que ninguém quer calcular. No bar do Seu Zé — esse verdadeiro microcosmo do Brasil profundo —, a mesa de plástico amarela da Skol funciona como o plenário do Supremo, o tribunal de Haia e a arquibancada do Maracanã, tudo compactado sob o aroma de gordura hidrogenada e o barulho de geladeira velha.

A conversa começou, como sempre, disfarçada de amenidade. Era para ser apenas o rescaldo do Fla-Vasco da semana. Mas futebol neste país nunca foi apenas chutar uma esfera de couro sintético; futebol é transferência de agressividade diplomática. Em menos de três rodadas de chope, o impedimento mal marcado do atacante rubro-negro já não era mais um erro de arbitragem. Virou, por uma contorção retórica digna de um sofista grego embriagado, o estopim para debater o caso Moraes x Mendonça.

— O VAR é o reflexo da ditadura da toga! — gritou o vascaíno da ponta, batendo o copo americano na mesa com a fúria de quem invoca Jürgen Habermas sem nunca ter lido uma orelha de livro. — Se o juiz de campo deu, o árbitro de vídeo não tinha que meter o bedelho. É o ativismo judicial das quatro linhas!

Do outro lado, o flamenguista, vestindo uma camisa desbotada e empunhando um espetinho de coração como se fosse um cetro absolutista, rebateu na velocidade de uma notificação de rede social:

— Ativismo nada! É a garantia da ordem institucional do campeonato! Se a gente deixar o critério na mão da barbárie da torcida, o jogo acaba. Sem o Moraes do apito para segurar as pontas, a República do Futebol desmorona. De invasão de campo e vandalismo patrimonial a gente já entende. Quem não aceita o resultado do placar e quer quebrar as vidraças do tribunal — seja no gramado ou na Praça dos Três Poderes naquele fatídico 8 de janeiro — não quer justiça, quer é melar o campeonato porque o esquema do seu time caiu!

O vascaíno engoliu em seco, sentindo o peso da analogia. O torcedor do Flamengo, figura pedagógica do pragmatismo popular, desenhou ali o maior paradoxo da nossa era: o homem comum precisando explicar para o bacharel de terno que a democracia, assim como o campeonato brasileiro, só funciona se todo mundo aceitar que o juiz — por mais antipático que seja — tem o direito de apitar o fim do jogo.

No auge do impasse, quando as esferas do poder e do futebol já tinham se fundido em um amálgama incompreensível de rancor, surgiu o fantasma que assombra qualquer boteco do Oiapoque ao Chuí: a velha e boa hipocrisia de conveniência. A máxima jurídica popular que rege as relações sociais por aqui foi evocada em alto e bom som: o pau que bate em Chico, convenientemente, esqueceu de bater em Francisco.

— Engraçado — ponderou o isentão da mesa, que só estava ali pelos petiscos —, o “Mendonça do apito” adora dar uma de xerife moralista e rigoroso quando a falta é do rival. Mas quando o Flávio Bolsonaro dá aquele drible desconcertante nas regras do campeonato, ele simplesmente olha para o lado e engole o apito. Fez um malabarismo retórico, atropelou o rito da arbitragem, ignorou o VAR e fingiu que as faltas violentas do garoto e de outros amigos de farda eram só “lance normal de jogo”. Pro Francisco da “rachadinha” e do Banco Master, é tapete vermelho e vista grossa; pro Chico da oposição, é o rigor implacável da lei e vazamento seletivo de áudio para a imprensa.

O flamenguista engasgou com a pilsen, enquanto o vascaíno tentava achar no celular um argumento jurídico que justificasse como o favoritismo “terrivelmente evangélico” virou regra hermenêutica no STF e no gramado. A coerência durou exatamente até o limite do interesse próprio.

O silêncio que se seguiu não foi de reflexão filosófica; foi o prenúncio da física dos corpos. O debate teológico-político-esportivo atingiu o seu ápice estético quando os argumentos verbais escassearam e a gravidade entrou em ação. A divergência sobre a blindagem dos amigos resolveu-se na mais pura tradição do iluminismo de botequim: o risco de uma garrafada.

Uma garrafa de vidro de 600ml foi erguida no ar, desenhando uma parábola ameaçadora contra a luz do entardecer. O perigo iminente de um traumatismo craniano cortou o nó górdio da discussão. Mas o detalhe mais maravilhoso da modernidade é que a violência física hoje dá preguiça. O esforço biomecânico de quebrar uma garrafa na cabeça do próximo exige um gasto calórico que o sedentarismo digital não comporta.

A garrafa voltou à mesa com um baque seco. O vascaíno pegou o celular. O flamenguista destravou a tela do dele.

Em menos de trinta segundos, os dois homens que quase se mataram por causa de Alexandre de Moraes, André Mendonça, a escalação do Vasco e a dignidade do Chico e do Francisco, estavam sentados lado a lado, em absoluto silêncio físico, bloqueando-se mutuamente no WhatsApp e digitando textões furiosos no X.

O bar voltou ao seu estado de letargia natural. A discussão, grande demais para o ambiente analógico, transbordou para o infinito do virtual, onde o ódio não sangra, não quebra copos e — o melhor de tudo — pode ser monetizado.

Olhando de fora, pago a minha conta e recolho minhas coisas. Há quem olhe para o botequim, para o estádio ou para as redes e sinta um desprezo elitista por esse Brasil de massas. Eu não. Eu me sinto uma privilegiada por fazer parte dela, por estar aqui no asfalto onde as contradições pulsam sem filtro. Mas não se enganem com o meu disfarce de torcedora comum: pertenço à massa, mas assisto ao jogo com o martelo na mão. Um martelo pesado, pronto para ser usado implacavelmente toda vez que o discurso dos que juram defender a moral não soar no ritmo da coerência — seja para blindar o Francisco de sempre, seja para usar o Chico como bode expiatório.

No final, a filosofia de balcão provou sua tese: a engrenagem continua girando não porque busca a justiça, mas porque precisa manter o espetáculo vivo. No campo ou no tribunal, as regras mudam conforme o freguês, e a nós resta apenas a lucidez de não aplaudir o teatro.

Garçom, fecha a conta. E que o juiz aprenda a apitar o jogo direito.

 

 

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