Entre Livros e Ideias

Entre Livros e Ideias — resenhas, reflexões e crônicas sobre os grandes autores que atravessaram os séculos, por Valeria Tostes.

O Bigode na fila do SUS

 

   O BIGODE NA FILA DO SUS 

     O ALÉM-DO-HOMEM E O AQUÉM-DO-CUSTO

Entrar em um hospital de elite ou cruzar os tapetes aveludados de um tribunal de justiça exige do observador atento uma calibração cromática instantânea. O contraste é cirúrgico. Nas salas de cirurgia e nas cadeiras de couro dos magistrados, impera uma brancura quase asséptica, intocada. Nos postos de enfermagem, nas bandejas de medicação e nos macacões da manutenção, o contingente é massivamente preto e pardo. Dizem os defensores da ordem vigente que se trata de uma simples distribuição de mérito; que os primeiros “se esforçaram mais” que os segundos.

Friedrich Nietzsche, com seu bigode imponente e sua arrogância aristocrática, provavelmente sorriria diante da cena. O filósofo alemão desprezava a ideia de igualdade. Para ele, o mundo dividia-se entre os fortes — capazes de criar seus próprios valores através da “vontade de potência” — e o rebanho, destinado à mediocridade. É precisamente nesse ponto que a extrema-direita contemporânea opera o seu maior malabarismo retórico. Apropriam-se do discurso da força e do desprezo pela vulnerabilidade para sustentar o mito da meritocracia, disparando contra qualquer política de reparação ou assistencialismo. Sob essa narrativa, programas de transferência de renda seriam “fábricas de dependência do Estado”, muletas ideológicas usadas para fins eleitorais por uma massa supostamente incapaz de caminhar com as próprias pernas.

A grande farsa desse castelo de cartas meritocrático reside no esquecimento proposital da linha de largada. É confortável pregar o darwinismo social quando se nasce protegido por heranças materiais e simbólicas. Do motorista de Uber ao médico, a farsa opera em escalas distintas, mas com a mesma eficácia anestésica. Enquanto o profissional da medicina de elite atribui sua cadeira confortável puramente ao mérito de suas noites de estudo — ignorando a barreira invisível do cursinho particular e o suporte financeiro familiar —, o motorista de aplicativo, precarizado e sem direitos, é seduzido pela narrativa de que é o “empresário de si mesmo”. É o nascimento do pobre de direita: o sujeito que defende com unhas e dentes a desregulamentação trabalhista que o sufoca. Na ânsia de se diferenciar do “rebanho assistenciado”, ele se coloca virtualmente no mesmo patamar do patrão. Esquece que, para a elite que ele emula, ele nunca será um par; será sempre o contingente subalternizado, a peça descartável que financia o bônus da plataforma. É o oprimido com a psicologia do senhor, mas com o tanque de combustível na reserva.

A ironia atinge o seu ápice poético e cruel quando o infortúnio bate à porta. O mesmo sujeito que infla o peito para atacar o assistencialismo estatal é engolido pela realidade concreta na primeira curva da vida. Basta uma doença crônica na família, um acidente de trânsito que destrua o instrumento de trabalho ou uma crise econômica que zere as poupanças para que a altivez desabe. Sem o amparo dos herdeiros do topo, o “empreendedor de si mesmo” descobre que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. É na fila do hospital público ou na secretaria de assistência social que ele se vê obrigado a recorrer justamente à rede de proteção que passou a vida demonizando. O lobo solitário da retórica de internet descobre, da pior forma, que a meritocracia não passa de um sedativo moral criado pelos ricos para que possam dormir em paz enquanto os oprimidos idealizam o chicote que os açoita.

A grande pergunta que resta, e que faria o pensador alemão engasgar com o próprio café, é de ordem puramente material: se Nietzsche não tivesse nascido na Saxônia, financiado por uma confortável pensão acadêmica, mas sim na periferia de uma metrópole brasileira, ele teria defendido as mesmas ideias? Se sua genialidade estivesse aprisionada no corpo de um jovem pardo, cumprindo plantões duplos como técnico de enfermagem para pagar o transporte, ele ainda escreveria sobre o Übermensch? Ou seria ele o primeiro a entender que a sobrevivência exige laços coletivos, e não o isolamento altivo dos fortes? Sob a lógica implacável da escassez, a “vontade de potência” de um Nietzsche retinto seria esmagada na primeira triagem do subemprego. Fora do cercado de privilégios, o aristocrata vira apenas mais uma estatística da exclusão, provando que o deserto da realidade não perdoa quem escolhe aplaudir o próprio carrasco.

 

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