Entre Livros e Ideias

Entre Livros e Ideias — resenhas, reflexões e crônicas sobre os grandes autores que atravessaram os séculos, por Valeria Tostes.

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Há futuros que assustam pela violência. Outros assustam porque parecem felizes.
Em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley nos apresenta uma sociedade futurista em que a ciência e o consumo se tornaram os novos deuses. Diferente de outras distopias marcadas pelo medo e pela violência, o controle social aqui é exercido pelo excesso de prazer, pela manipulação genética e pelo conformismo programado. É um mundo onde a dor foi erradicada, mas a própria humanidade foi levada junto com ela.
O que mais impressiona na obra é a precisão com que Huxley antecipou dilemas modernos. Os seres humanos são produzidos em série, divididos em castas biológicas e condicionados desde o nascimento a aceitarem sua posição sem questionar. Casamentos, famílias e laços profundos foram proibidos; em seu lugar, o Estado estimula a promiscuidade e o consumo desenfreado de mercadorias. Se qualquer sentimento de angústia ou vazio insistir em aparecer, basta tomar uma dose de soma, a droga oficial da felicidade instantânea e anestésica.
A história nos leva a uma sociedade em que guerras, conflitos familiares, grandes paixões e boa parte do sofrimento humano parecem ter sido finalmente vencidos. Não há fome, todos possuem um lugar previamente determinado e a estabilidade tornou-se um dos maiores valores sociais. À primeira vista, talvez pareça que a humanidade finalmente encontrou a fórmula para viver em paz. O preço dessa paz, porém, começa a ser cobrado antes mesmo do nascimento.

A história nos leva a uma sociedade em que guerras, conflitos familiares, grandes paixões e boa parte do sofrimento humano parecem ter sido finalmente vencidos. Não há fome, cada pessoa possui um lugar previamente determinado e a estabilidade tornou-se um dos maiores valores sociais. À primeira vista, talvez pareça que a humanidade finalmente encontrou uma fórmula para viver em paz.

O preço dessa paz, porém, começa a ser cobrado antes mesmo do nascimento.

Nesse mundo, seres humanos já não nascem de mães. São produzidos em laboratórios e destinados às castas Alfa, Beta, Gama, Delta e Ípsilon. Antes mesmo de compreenderem quem são, passam por processos de condicionamento destinados a fazê-los desejar exatamente a vida que terão. Alguns ocuparão funções intelectuais; outros executarão trabalhos repetitivos. Não é necessário obrigá-los a aceitar seu lugar. Eles foram preparados para gostar dele.

Família, maternidade e paternidade pertencem a um passado considerado constrangedor. Relações afetivas exclusivas são desencorajadas. O consumo é estimulado e a solidão parece quase uma anomalia. Se alguma tristeza, ansiedade ou desconforto insistir em aparecer, existe o soma, a droga capaz de devolver rapidamente a sensação de bem-estar. Não é preciso compreender a dor quando é possível simplesmente fazê-la desaparecer.

É nesse universo que conhecemos Bernard Marx e Lenina Crowne. Bernard pertence à casta Alfa, mas não se sente completamente integrado à sociedade em que vive. Há nele um desconforto que contrasta com Lenina, muito mais adaptada aos valores que recebeu desde o nascimento.

Quando os dois viajam para uma Reserva de Selvagens, entram em contato com tudo aquilo que sua civilização procurou eliminar. Ali as pessoas nascem naturalmente, envelhecem, adoecem, constituem famílias, praticam rituais e convivem com a dor.

É também ali que encontram Linda e seu filho, John.

Linda havia pertencido ao Estado Mundial, mas permanecera na Reserva depois de uma viagem ocorrida muitos anos antes. John nasceu naturalmente e cresceu entre pessoas às quais nunca conseguiu pertencer por completo. Filho de uma mulher vinda de outro mundo e rejeitado em grande parte pela comunidade em que vive, encontra nos livros — sobretudo em Shakespeare — palavras para compreender sentimentos que conhece intensamente: amor, desejo, ciúme, honra, culpa, beleza e sofrimento.

Bernard percebe o impacto que a existência dos dois pode provocar e os leva de volta para Londres.

John imediatamente desperta curiosidade. O chamado “Selvagem” torna-se uma espécie de atração social, e Bernard, antes desconfortável e pouco valorizado, passa a desfrutar do prestígio de ser o homem que o apresentou àquela sociedade. Mas é justamente através dos olhos de John que o admirável mundo começa a parecer cada vez menos admirável.

Ele se sente atraído por Lenina, mas os dois foram formados por concepções de amor praticamente incompatíveis. Para ela, exclusividade, espera e compromisso não fazem sentido. Para John, alimentado pelas palavras de Shakespeare, desejo e amor estão carregados de idealização, conflito e significado. Quando Lenina manifesta diretamente seu desejo por ele, aquilo que deveria aproximá-los evidencia a enorme distância entre seus mundos.

Enquanto John tenta compreender aquela sociedade, Linda encontra nela exatamente aquilo que desejava: a possibilidade de não sentir. Refugia-se cada vez mais no soma, afastando-se da realidade até que seu corpo não resiste.

John está ao lado da mãe quando ela morre.

Sua dor, porém, acontece diante de pessoas condicionadas desde a infância para encarar a morte sem grande envolvimento emocional. O sofrimento que para ele é profundamente humano parece quase inadequado naquele ambiente. Pela primeira vez, torna-se evidente que uma sociedade que conseguiu reduzir o medo da morte também precisou modificar a maneira como seus habitantes se relacionam com a perda.

A revolta de John cresce. Ao encontrar trabalhadores recebendo suas doses de soma, tenta convencê-los de que aquela felicidade tem um preço. Interfere na distribuição da droga, provoca uma confusão e acaba detido ao lado de Bernard e Helmholtz Watson, outro personagem que, apesar de ocupar uma posição privilegiada, também percebe que alguma coisa falta à existência cuidadosamente organizada pelo Estado.

É então que Huxley conduz o romance ao seu confronto mais importante.

Diante de Mustafá Mond, um dos Controladores Mundiais, John finalmente encontra alguém que compreende perfeitamente aquilo que ele tenta defender. Mond conhece Shakespeare. Conhece religião, arte, história e ciência. Sabe o que existia antes daquela sociedade e sabe também o que foi sacrificado para construí-la.

Essa talvez seja uma das escolhas mais interessantes de Huxley: Mond não defende o sistema por ignorância.

Ele conhece o preço.

Arte profunda pode perturbar. Ciência sem limites pode ameaçar a estabilidade. Religião nasce também da necessidade, da solidão e da consciência da mortalidade. Paixões intensas podem produzir sofrimento. A liberdade permite escolhas — e escolhas permitem erros.

O Estado Mundial preferiu eliminar os riscos.

John, porém, deseja justamente aquilo que aquela civilização considera inconveniente. Quer beleza, poesia, liberdade, perigo, fé, paixão. Quer poder escolher mesmo quando a escolha trouxer sofrimento. Diante de um mundo que transformou a felicidade em obrigação, ele reivindica até mesmo o direito de ser infeliz.

É nesse confronto que percebemos que o soma representa muito mais do que uma droga. Ele é o símbolo de uma sociedade que não permite que o desconforto permaneça tempo suficiente para se transformar em pergunta. Tristeza, frustração, vazio e angústia não precisam ser compreendidos. Basta silenciá-los.

O mesmo princípio atravessa o consumo. As pessoas são condicionadas a comprar, substituir e descartar. Conservar e reparar não interessam a uma economia que depende do consumo permanente. Até determinadas formas de lazer são estimuladas porque exigem equipamentos e movimentam a produção.

Pouco a pouco, Huxley constrói um mundo em que objetos, prazeres e até relações humanas parecem submetidos à lógica da substituição.

Bernard e Helmholtz recebem destinos diferentes. John, porém, não deseja permanecer naquele mundo. Procura escapar dele e refugia-se sozinho em um farol, tentando reconstruir uma existência na qual possa escolher como viver. Busca silêncio, isolamento e até penitência.

Mas a sociedade não o deixa desaparecer.

Sua tentativa de viver longe de todos transforma-se em espetáculo. Pessoas começam a procurá-lo por curiosidade. Repórteres aparecem. Multidões se aproximam para observar o Selvagem como entretenimento. Até sua recusa em participar daquele mundo é absorvida por ele.

John acaba envolvido novamente justamente naquilo de que tentava fugir. Quando percebe que não conseguiu preservar nem o último espaço que considerava seu, já não encontra uma maneira de reconciliar o mundo que desejava com aquele em que foi obrigado a viver.

Na manhã seguinte, encontram seu corpo pendurado no farol.

E somente então o destino de John revela toda a crueldade da experiência construída por Huxley: ele não conseguiu pertencer à Reserva, não conseguiu pertencer ao Estado Mundial e, finalmente, não conseguiu existir fora de ambos.

Publicado originalmente em 1932, Admirável Mundo Novo continua inquietante porque sua pergunta central não depende de laboratórios futuristas, castas ou de uma droga chamada soma. O romance nos obriga a pensar no preço que estamos dispostos a pagar para evitar o desconforto e na facilidade com que prazer, consumo e distração podem ocupar o espaço da reflexão.

A comparação com 1984, de George Orwell, é quase inevitável, embora os dois livros imaginem mecanismos diferentes de controle. Orwell nos mostra um poder que vigia, censura, ameaça e pune. Huxley imagina algo mais sedutor: uma sociedade em que grande parte das pessoas não precisa ser obrigada a obedecer porque aprendeu a desejar aquilo que o sistema deseja para elas.

Talvez seja esse o aspecto mais perturbador do livro. O Estado Mundial não precisa manter milhões de pessoas infelizes sob permanente coerção. Ao contrário: oferece conforto, prazer, estabilidade e uma maneira rápida de eliminar quase qualquer sofrimento.

E então surge a pergunta que permanece muito depois da última página:

Se pudéssemos eliminar a dor ao preço da liberdade, ainda saberíamos reconhecer aquilo que perdemos?

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