Entre Livros e Ideias

Entre Livros e Ideias — resenhas, reflexões e crônicas sobre os grandes autores que atravessaram os séculos, por Valeria Tostes.

O Martelo de Vidro

O Martelo de Vidro

O reflexo azul da tela ilumina o rosto pálido no vagão do metrô. São seis da tarde. Dedos ávidos deslizam de baixo para cima, numa velocidade que desafia a própria capacidade de absorção do cérebro. Uma praia paradisíaca, uma dancinha coreografada, uma frase motivacional, uma tragédia na fada do mundo, um gato engraçado. Rolagem infinita. Se Friedrich Nietzsche estivesse sentado no banco ao lado, ele não choraria pelo cavalo de Turim; ele choraria pelo homem moderno preso ao fio invisível do algoritmo.

O filósofo que empunhava o martelo para quebrar os velhos ídolos olharia para as nossas telas de vidro com uma ironia fina. Ele perceberia imediatamente: a “moral de rebanho” mudou de endereço. Não precisamos mais de igrejas ou de Estados para nos dizer como agir, o que vestir ou o que amar. O rebanho agora se reúne no feed. A aprovação da comunidade, que antes exigia o cumprimento de dogmas rígidos, hoje foi terceirizada para o botão de curtida. Curtir é pertencer. Ser cancelado é o novo exílio da tribo. O algoritmo tornou-se o pastor invisível que conduz as ovelhas digitais pelas pastagens da relevância artificial.

Nietzsche diagnosticou o niilismo como o momento em que os valores supremos se desvalorizam, deixando um vazio existencial. Nós sentimos esse vazio toda vez que a tela se apaga e o reflexo do nosso próprio rosto cansado aparece na tela preta. Para fugir desse abismo, criamos um espetáculo de positividade tóxica. O Instagram virou o palco da grande mentira: todos são felizes, todos são produtivos, todos encontraram o propósito. É o medo pavoroso do nada travestido de filtros de beleza. Trocamos a “vontade de potência” — que para Nietzsche era a força de autocriação, superação e domínio de si — pela mísera vontade de agradar ao tribunal dos comentários. Tornamo-nos personagens de nós mesmos, implorando pela validação de desconhecidos.

De repente, o sinal do metrô cai. A tela congela. O círculo de carregamento gira em falso, como um Ouroboros digital lembrando o eterno retorno do mesmo tédio. O jovem levanta os olhos da tela por cinco segundos e encara o passageiro da frente. Há um instante de desconforto absoluto no vagão, o peso insuportável da realidade sem filtros.

Nietzsche sorriria nesse segundo de silêncio. Para ele, a verdadeira liberdade não está em seguir a correnteza das curtidas, mas em ter a coragem de criar os próprios valores. O verdadeiro Übermensch — o super-homem moderno — não seria aquele com milhões de seguidores, mas aquele capaz de guardar o celular no bolso, olhar para o abismo do próprio silêncio e dizer: “Eu sou o autor da minha própria vida”. O metrô para, as portas se abrem, o sinal volta. O dedo volta a rolar. A vida de rebanho continua.

Valeria Tostes

 

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