Poucos filósofos foram tão citados, interpretados — e mal interpretados — quanto Friedrich Nietzsche. Seu nome tornou-se quase inseparável de expressões como “Deus está morto”, “além-do-homem”, “vontade de potência” e “eterno retorno”. Mas por trás do pensador que dizia filosofar “com o martelo” existiu um homem de saúde frágil, relações intensas, longos períodos de solidão e uma vida muito menos triunfante do que a força de sua escrita poderia sugerir.
O menino que perdeu o pai
Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844, em Röcken, na Prússia. Era filho do pastor luterano Carl Ludwig Nietzsche e de Franziska Oehler.
A infância foi marcada precocemente pela morte. Seu pai morreu em 1849, quando Nietzsche tinha apenas quatro anos. No ano seguinte, morreu também seu irmão mais novo.
A família mudou-se então para Naumburg, onde Nietzsche cresceu cercado principalmente por mulheres: a mãe, a irmã Elisabeth, a avó e duas tias.
Desde muito jovem demonstrou grande capacidade intelectual, especialmente para línguas, literatura e música. Em 1858 ingressou na prestigiosa escola de Pforta, conhecida por sua formação humanista rigorosa.
Talvez ninguém imaginasse que aquele jovem educado em ambiente profundamente religioso se tornaria, décadas depois, um dos mais contundentes críticos do cristianismo e da moral ocidental.
Um professor extraordinariamente jovem
Nietzsche iniciou os estudos universitários em Teologia e Filologia Clássica em Bonn, mas logo abandonou a Teologia e concentrou-se na Filologia.
Seu talento chamou a atenção do professor Friedrich Ritschl. Em 1869, antes mesmo de concluir formalmente o doutorado, Nietzsche foi indicado para a cátedra de Filologia Clássica da Universidade da Basileia, na Suíça.
Tinha apenas 24 anos.
A carreira acadêmica parecia promissora. Entretanto, Nietzsche não permaneceria por muito tempo dentro dos limites tradicionais da universidade.
Seu pensamento já começava a procurar outros caminhos.
Wagner: admiração e ruptura
Nesse período, Nietzsche aproximou-se do compositor Richard Wagner e de sua esposa, Cosima. Durante algum tempo, viu em Wagner a possibilidade de uma renovação profunda da cultura alemã.
A admiração aparece em sua primeira grande obra, O Nascimento da Tragédia, publicada em 1872.
Mas o encantamento não duraria.
Com o passar dos anos, Nietzsche começou a rejeitar aquilo que percebia como nacionalismo, teatralidade e crescente aproximação de Wagner com o cristianismo. A relação entre os dois se deteriorou até o rompimento.
Nietzsche, que admirara Wagner quase como um mestre, transformou-o posteriormente em alvo de algumas de suas críticas mais severas.
Era um padrão que apareceria outras vezes em sua vida intelectual: Nietzsche dificilmente preservava um ídolo depois de começar a examiná-lo com o próprio martelo.
O filósofo errante
A saúde de Nietzsche sempre foi delicada. Sofria de fortes dores de cabeça, problemas digestivos e distúrbios de visão que, em determinados períodos, praticamente o impediam de ler e escrever.
Em 1879, aos 34 anos, deixou definitivamente a Universidade da Basileia.
Começou então uma existência quase nômade.
Passava temporadas em diferentes cidades da Suíça, Itália e França, procurando climas que aliviassem seus sintomas. Caminhava durante horas e escrevia intensamente.
Grande parte de sua filosofia nasceu nesse período de deslocamentos e solidão.
Foi também quando surgiram algumas de suas obras fundamentais, como Aurora, A Gaia Ciência, Assim Falou Zaratustra, Além do Bem e do Mal e Genealogia da Moral.
Enquanto sua saúde física se deteriorava, seu pensamento parecia ganhar cada vez mais força.
Lou Salomé e um encontro que deixou marcas
Em 1882 Nietzsche conheceu Lou Andreas-Salomé, uma jovem intelectual russa de grande independência e inteligência.
Nietzsche ficou profundamente fascinado por ela.
Ao lado do filósofo Paul Rée, os três imaginaram formar uma espécie de comunidade intelectual. A relação, entretanto, tornou-se emocionalmente complicada. Nietzsche chegou a propor casamento a Lou, que recusou.
O projeto dos três desmoronou.
O episódio foi agravado pelos conflitos entre Lou e Elisabeth, irmã de Nietzsche, que desaprovava profundamente aquela aproximação.
Depois da ruptura, Nietzsche atravessou um período de grande sofrimento e isolamento.
Pouco depois começaria a escrever a obra que se tornaria uma das mais conhecidas de toda a sua filosofia.
Zaratustra desce da montanha
Entre 1883 e 1885 Nietzsche escreveu as partes principais de Assim Falou Zaratustra.
Por meio da figura do profeta Zaratustra, apresentou poeticamente alguns dos temas que se tornariam inseparáveis de seu nome: a superação de si, a crítica aos valores herdados, o eterno retorno e o Übermensch, termo frequentemente traduzido como “além-do-homem” ou “super-homem”.
Nietzsche não escrevia como um filósofo convencional.
Usava aforismos, metáforas, ironia, poesia e provocação. Em vez de construir um sistema fechado, parecia preferir dinamitar certezas.
Seu martelo, porém, não deveria ser entendido apenas como instrumento de destruição.
Em Crepúsculo dos Ídolos, a imagem do martelo também sugere auscultar os ídolos, como quem toca uma superfície para descobrir se aquilo que parece sólido é, na verdade, oco.
Nietzsche queria testar valores.
Perguntar de onde vieram.
A quem serviam.
E se ainda mereciam ser preservados.
“Deus está morto”
Entre suas afirmações mais famosas — e frequentemente retiradas do contexto — está:
“Deus está morto.”
Nietzsche não estava simplesmente comemorando a inexistência de Deus.
Seu diagnóstico era muito mais inquietante.
A modernidade ocidental estava progressivamente abandonando a estrutura religiosa que durante séculos sustentara seus valores morais e sua compreensão do mundo. Mas, se essa estrutura desaparecesse, o que ocuparia seu lugar?
O problema não terminava com a morte de Deus.
Começava ali.
Sem os antigos fundamentos, o ser humano teria de enfrentar o vazio deixado por eles e assumir a responsabilidade de criar novos valores.
É nesse território que surge o problema do niilismo, um dos grandes temas de sua filosofia.
Turim, 1889
Em janeiro de 1889, em Turim, Nietzsche sofreu um colapso mental do qual nunca se recuperaria.
Existe uma história famosa segundo a qual teria visto um cocheiro chicoteando um cavalo, corrido até o animal e abraçado seu pescoço antes de desabar.
A cena tornou-se quase inseparável da biografia de Nietzsche.
Entretanto, embora seja repetida em inúmeras narrativas, não há documentação suficientemente segura para tratá-la como fato histórico incontestável.
O que sabemos é que Nietzsche sofreu um colapso grave naquele período.
Depois disso, escreveu cartas extremamente perturbadas a amigos e conhecidos. Foi internado e posteriormente colocado sob os cuidados da família.
O homem que escrevera tanto sobre força, criação e superação passou os últimos anos incapaz de continuar sua obra filosófica.
Nietzsche depois de Nietzsche
Após o colapso, sua mãe assumiu seus cuidados. Depois da morte dela, em 1897, Nietzsche ficou sob responsabilidade de sua irmã, Elisabeth Förster-Nietzsche.
E aqui começa uma das partes mais controversas de sua história.
Elisabeth possuía posições nacionalistas e antissemitas que Nietzsche havia rejeitado. Ela passou a administrar os manuscritos e a imagem pública do irmão, selecionando, organizando e editando materiais deixados por ele.
A obra publicada posteriormente como A Vontade de Potência, por exemplo, não corresponde a um livro finalizado por Nietzsche, mas a uma compilação póstuma de anotações organizadas editorialmente.
Décadas depois, o nome do filósofo seria associado ao nazismo.
Essa associação exige enorme cuidado histórico.
Conceitos nietzschianos foram apropriados e reinterpretados posteriormente, enquanto seus ataques ao antissemitismo, ao nacionalismo alemão e ao pensamento de massa tornam impossível reduzir sua filosofia à ideologia nazista.
É uma ironia amarga: o filósofo que passou a vida desconfiando das interpretações coletivas também teria sua própria obra transformada em objeto de disputa depois que já não podia defendê-la.
A morte
Friedrich Nietzsche morreu em 25 de agosto de 1900, aos 55 anos.
Não chegou a testemunhar a dimensão que sua obra alcançaria.
Sua influência atravessaria a filosofia, a literatura, a psicologia, a arte e o pensamento político dos séculos XX e XXI. Freud, Jung, Heidegger, Camus, Sartre, Foucault e inúmeros outros pensadores dialogariam, direta ou indiretamente, com questões levantadas por ele.
E continuamos dialogando.
Talvez porque Nietzsche raramente ofereça o conforto de uma resposta pronta.
Ele prefere retirar o chão.
Para começar a ler Nietzsche
O Nascimento da Tragédia — sua primeira grande obra, ainda profundamente marcada pela influência de Schopenhauer e Wagner.
A Gaia Ciência — fundamental para temas como a “morte de Deus” e o eterno retorno.
Assim Falou Zaratustra — sua obra mais poética e simbólica.
Além do Bem e do Mal — crítica aos fundamentos tradicionais da moral e da filosofia.
Genealogia da Moral — investigação sobre a origem e transformação dos valores morais.
Crepúsculo dos Ídolos — uma entrada relativamente acessível para vários temas de seu pensamento e para a famosa imagem do martelo.
Ecce Homo — Nietzsche olhando para si mesmo e para seus próprios livros, escrito pouco antes do colapso.
Nietzsche passou a vida colocando valores, crenças e certezas diante de um martelo.
Mas talvez o aspecto mais interessante de sua filosofia não esteja naquilo que ele queria destruir.
Está na pergunta que permanece depois que o ídolo cai:
E agora, quais valores você escolherá para construir a própria vida?
Antes de conhecer o filósofo que queria filosofar com um martelo, vale conhecer o homem que segurava esse martelo.
Valeria Tostes


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